A régua que separa diferença de composição de diferença de tratamento

A Lei nº 14.611/2023 obriga empresas com 100 ou mais empregados a publicar, a cada semestre, o Relatório de Transparência Salarial. Quase toda empresa sabe calcular a média por cargo. Quase nenhuma sabe responder a pergunta que importa: quanto da diferença vem de mulheres estarem em cargos diferentes, e quanto sobra quando tudo o mais é igual. O Equipara responde com a régua do mercado formal brasileiro, medida na RAIS.

Gap bruto do mercado

Mediana do salário por hora das mulheres abaixo da dos homens, sem controlar nada. É o número que aparece na maioria dos relatórios.

Gap com tudo o mais igual
16,1%

Mesmas pessoas, mesma idade, escolaridade, jornada, tempo de casa, vínculo e ocupação. Só o gênero muda. Em 91,6% dos 20.000 perfis testados, o homem ganha mais.

Por que o número bruto é menor que o número justo. Na base, 24,9% das mulheres têm superior completo ou mais, contra 14,3% dos homens. Níveis altos pagam mais, e a vantagem educacional delas compensa parte da desvantagem salarial quando tudo entra numa conta só. O gap bruto subestima a desigualdade porque compara populações com composição diferente. É o paradoxo da composição, e é ele que o Relatório de Transparência não captura sozinho.

O gap por escolaridade

Mediana do salário por hora, base completa após a limpeza (6.059.131 vínculos). Diferença estatisticamente significativa em todos os níveis (Mann-Whitney). A qualificação não elimina a desigualdade: ela acompanha a mulher escada acima.

MulheresHomens

Raça e gênero se acumulam

Gap de gênero dentro de cada grupo de raça ou cor, base completa. A categoria "Não informado" (947.452 vínculos, 15,7% da base) fica fora da comparação: é ausência de registro, não um grupo social.

Tecnologia da informação, dois problemas distintos

Mulheres em TI
21,5%

contra 43,1% no mercado. Duas vezes menos presentes.

Gap em TI, recorte amplo
2,1%

menor que os 9,4% do mercado geral.

Gap em TI, superior completo
9,1%

o gap cresce entre quem tem diploma.

Não escreva "em TI é pior". O que os dados dizem: em TI a desigualdade salarial bruta é menor, e o problema principal do setor é a ausência de mulheres. Comparando só quem tem superior completo, a diferença aumenta em vez de sumir, o que desmonta o argumento de "cargos menos qualificados". Recorte por ocupação (CBO), 85.908 vínculos.

Nove anos observados num intervalo de dezesseis

Gap bruto e gap controlado por escolaridade, ano a ano. A amostra sorteia linhas, não anos: 2010, 2014, 2016, 2017, 2019, 2020, 2021 e 2024 não entraram no sorteio. Por isso este gráfico não é uma série temporal contínua: é uma amostra pontual de nove anos dentro do intervalo de 2009 a 2025, com lacunas entre eles. O gap está em porcentagem de propósito: em reais, a inflação entraria na conta.

Gap controlado por escolaridadeGap brutoLei nº 14.611, julho de 2023

A linha clara cai sozinha porque o perfil educacional das mulheres subiu. A linha escura é a comparação justa: de 22,3% em 2009 para 9,3% em 2025. Entre os dois anos posteriores à lei, de 11,7% (2023) para 9,3% (2025). Dois pontos não fazem tendência, e o trabalho não afirma causalidade.

O topo, analisado à parte

Mulheres na diretoria
25,2%

contra 43,1% no mercado. Achado de acesso.

Gap mensal na diretoria
71,8%

R$ 1.050 contra R$ 3.719 de mediana mensal.

Gap mensal no mercado
13,3%

a desigualdade se intensifica no topo, não se dissolve.

Vínculo 80 (diretores sem vínculo e dirigentes sindicais), 1.755 registros, sem limitação legal de jornada e por isso fora da régua da CLT usada no resto do trabalho. Remuneração mensal, não por hora. Mann-Whitney p = 7,35e-36. Amostra pequena: ler a direção, não a casa decimal.

Fonte
RAIS, via Base dos Dados
Amostra
0,5% dos vínculos, 2009 a 2025
Vínculos analisados
6.059.131
Mediana geral
R$ 7,06 por hora
Modelo
Random Forest